quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Saudade


Bater o dedo do pé na quina da cama dói. Prender a mão na porta dói.
Torcer o braço dói. Um tapa, um murro, um chute,
doem. Dói bater a cabeça na quina da parede, dói morder a língua,
dói cólica, dor de dente e pedra no rim.

Mas o que mais dói é a saudade. Saudade de alguém que mora longe.
Saudade de uma brincadeira da infância. Saudade do
gosto de uma comida que não se encontra mais.
Saudade da avó que morreu, do amigo que não mais se viu.
Saudade de um lugar. Saudade até da
gente mesmo, que com o tempo mudamos.

Todas essas saudades doem e até fazem chorar. Mas a
saudade mais dolorida é a saudade de quem
se ama. Saudade do cheiro, do jeito, dos beijos, da pele e até dos defeitos.

Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia estar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se onde estavam.
Você podia ir para o trabalho e ela para o curso,
mas sabiam-se onde se encontravam.

Você podia ficar o dia todo sem vê-la e ela o dia sem vê-lo,
mas se veriam no outro dia.

Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se
menor, ao outro sobra uma
saudade que ninguém sabe explicar. Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua chorando com tudo. Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu.

Não saber se ela tem comido bem por causa daquela
mania de estar sempre ocupada, se ele tem assistido às aulas
de inglês, se aprendeu a cozinhar algo diferente,
se ela aprendeu enfim a dirigir, se ele continua
preferindo coca-cola, se ela continua preferindo suco,
se ele continua sorrindo
com aqueles olhinhos apertados, se ela continua dançando
daquele jeitinho enlouquecedor,
se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.

Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os dias
que ficaram mais compridos, não saber como encontrar
tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como
frear as lágrimas diante de uma música, não saber como
vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber se ela está com outro,
e ao mesmo tempo querer e ter medo ao saber que está.

É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a
todos os amigos por isso... É não querer saber se ele está
mais magro, se ela esta mais bela. Saudade é nunca mais
saber de quem se ama, e ainda assim doer.

Saudade foi o que senti enquanto
estive sem você...


Texto reformulado e dedicado ao meu namorado Alexandre

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